Ciclocidade já existe. E agora?
O ato da fundação da Ciclocidade foi muito muito bom, depois de muita luta, muita discussão, empenho de muitas pessoas, gente incrível que deu seu tempo e dinheiro pra isso acontecer.
(Mais fotos da fundação do Mathias, da Laura, do Eduardo, do Pedalante e minhas)
No ato, participando da reunião, vi poucas pessoas de grupos da noite. Reconheci a Renata, do seminal NightBikers, e Tereza, do SaiaNaNoite. Mas esses ciclistas, os que usam a bicicleta para lazer, não são o alvo, o nosso público.
No geral, muitos rostos conhecidos, de outras Bicicletadas, eventos, atividades, enfim.
Mas nunca encontro essas pessoas pedalando pelas ruas, as que estavam no Ato e todos os outros ciclistas que conheço que participam desses grupos. É raríssimo isso acontecer.
Na cidade de São Paulo são feitos 350 mil trajetos por dia de bike (os números são contraditórios e incompletos, haja vista que não foi feito ainda nenhum levantamento sério, mas alguns dados podem ser vistos no site da ANTP e também no NossaSãoPaulo e aqui também, uma discussão sobre estatísiticas no site da ViaCiclo, e mais números do Rio de Janeiro pelo RodasDaPaz ; ter números mais precisos será uma atribuição de nossa nova Associação).
Ali, naquele evento de fundação, somos quase nada. Não significamos uma ínfima parcela de ciclistas da cidade de São Paulo.
Na rua nunca encontro nenhum destes ciclistas. No entanto sempre cruzo com dezenas, centenas de outros ciclistas todos os dias: trabalhadores, estudantes, cidadãos de toda a cidade, carregando, levando e trazendo mercadorias, indo e voltando pro trabalho, pra casa, pra escola.
Não sabem usar as leis, não sabem se defender, não conhecem seus direitos.
Carros, motos, ônibus e caminhões violam seus direitos todos os dias, todos os momentos, retirando deles o direito de usar a cidade, usufruir a cidade.
Os motoristas tambem não conhecem seus direitos e deveres. E mesmo quando sabem vale mais o jeitinho, o ‘sou mais eu’, ‘sabe com quem está falando?’.
Eu tenho pavor de sair às ruas, mas ainda assim me jogo na frente desses rinocerontes bêbados, para exigir meu direito e ameaçar seu espelhinho. Ele quebra a minha perna e até me mata, mas não amassaria sua lataria.
Quero agora que nossa associação me dê recursos para que eu possa usufruir e pedalar na cidade com mais prazer, alegria, segurança.
E que márcias, antonios, marios, josés não percam a vida por causa de 2 minutos da pressa de algum carrocrata.
Que o dia em que usaremos toda a cidade para seres humanos chegue em breve. Feito Portland, San Francisco, Copenhagen, ou mesmo cidades aqui da América Latina, que te dão muito mais segurança e te acolhem como pessoa. Bogotá, Montevideo, tantos lugares, o mundo todo.
Quero que minha cidade também mereça o meu respeito.
Creio que a luta da Ciclocidade agora é essa: conectar todos os ciclistas, criar comunicação entre todos eles e os poderes públicos e privados que direta e indiretamente influenciam no nosso trânsito pelas ruas da cidade; tornar o ato de pedalar em algo viável para mais pessoas, e para quem já pedala em uma ação mais transformadora e prazerosa.
Como disse Thiago Benicchio, primeiro diretor geral da Ciclocidade no ato de fundação da associação, pedalar te transforma, transforma a sua cidade. Eu pedalo.


















